domingo, 29 de janeiro de 2012

A mulher

LENDAS JUDAICAS





ADÃO:          A mulher

Quando abriu seus olhos pela primeira vez e contemplou o mundo ao seu redor, Adão irrompeu em louvor a Deus:

– Quão grandes são tuas obras, Senhor!

Porém sua admiração pelo mundo ao seu redor não excedeu a admiração que todas as coisas criadas dispensaram a Adão. Elas tomaram-no por seu criador, e vieram prestar-lhe adoração. Ele porém disse:

– Por que vocês vêem adorar a mim? Não, eu e vocês juntos reconheceremos a majestade e o poder daquele que nos criou a todos. “O Senhor reina” – declarou ele, – “e está revestido de majestade!”

Não apenas as criaturas da terra: até mesmo os anjos chegaram a pensar que Adão fosse senhor de todos, e eles estavam prestes a saudá-lo com o “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos” quando Deus fez com Adão caísse no sono; os anjos souberam então que ele não passava de um ser humano.

O propósito do sono que recaiu sobre Adão era dar a ele uma esposa, para que a raça humana pudesse se desenvolver e todas as criaturas reconhecessem a diferença entre Deus e o homem. Quando ouviu o que Deus estava decidido a fazer, a terra começou a tremer e sacudir.

– Não tenho forças – ela disse – para prover comida para multidão dos descendentes de Adão.

Por essa razão o tempo foi dividido entre Deus e a terra: Deus ficou com a noite, a terra com o dia. O sono reconfortante sustenta e fortalece o homem, proporciona-lhe vida e descanso, enquanto a terra produz fruto com a ajuda de Deus, que a rega. Ainda assim o homem tem de trabalhar a terra a fim de ganhar o seu sustento.

A decisão divina de conceder uma companheira a Adão veio ao encontro dos anseios do homem, que havia sido tomado por uma sensação de isolamento quando os animais vieram até ele em pares para receberem seus nomes.

Apesar de todo cuidado empregado, a mulher apresenta todas as falhas que Deus procurou evitar.

A fim de banir sua solidão, a primeira mulher dada como esposa a Adão foi Lilith. Como ele, Lilith foi criada do pó da terra; ela porém permaneceu com ele por um intervalo muito curto, porque insistia em desfrutar de igualdade completa com seu marido. Ela justificava seus direitos a partir de sua origem comum. Com a ajuda do Nome Inefável, que ela proferiu, Lilith fugiu de Adão e desapareceu em pleno ar. Adão veio reclamar diante de Deus que a mulher que ele lhe havia dado o havia abandonado, e Deus enviou três anjos para capturá-la. Esses foram encontrá-la no Mar Vermelho, e tentaram fazê-la voltar com a ameaça de que caso não fosse ela perderia diariamente cem de seus filhos-demônios. Lilith, no entanto, preferiu essa punição a viver com Adão. Ela se vinga ferindo crianças-de-colo – os meninos durante sua primeira noite de vida, sendo que as meninas estão expostas a seus desígnios perversos até os vinte anos de idade. O único modo de afastar o mal é colocando nas crianças um amuleto que traz os nomes de seus três anjos captores, pois esse foi o acordo feito entre eles.

A mulher destinada a ser a verdadeira companheira do homem foi tomada do corpo de Adão, pois “apenas quando semelhante é unido a semelhante a união é indissolúvel”. A criação da mulher a partir do homem foi possível porque Adão tinha originalmente duas faces, que foram separadas com o nascimento de Eva.

Quando estava a ponto de criar Eva, Deus disse:

– Não farei a mulher a partir da cabeça do homem, para que ela não ande de cabeça empinada em orgulho e arrogância; não a farei a partir do olho, para que seus olhos não sejam licenciosos; não a partir do ouvido, para que ela não fique ouvindo conversa alheia; não a partir do pescoço, para que ela não seja insolente; não a partir da boca, para que ela não seja tagarela; não a partir do coração, para que ela não seja inclinada à inveja; não a partir da mão, para que ela não seja intrometida; não a partir do pé, para que ela não seja vagabunda. Irei formá-la a partir de uma parte casta do corpo.

A cada membro e orgão que formava, Deus ia dizendo:

– Seja casto! Seja casto!


Entretanto, apesar de todo cuidado empregado, a mulher apresenta todas as falhas que Deus tentou evitar. As filhas de Sião foram arrogantes e andaram com pescoços empinados e olhos licenciosos; Sara ouviu a conversa alheia em sua própria tenda, quando o anjo falava com Abraão; Miriam foi mexeriqueira, acusando Moisés; Raquel teve inveja de sua irmã Léia; Eva colocou suas mãos sobre o fruto proibido, e Diná foi vagabunda.

A constituição física da mulher é muito mais complicada do que a do homem, já que deve servir para a concepção; semelhantemente, a inteligência da mulher amadurece mais cedo do que a inteligência do homem. Muitas das diferenças físicas e psíquicas entre os dois sexos podem ser atribuídas ao fato de que o homem foi formado da terra e a mulher do osso. Mulheres precisam de perfumes, homens não: a poeira do chão permanece inalterada não importa por quanto tempo seja guardada; a carne, no entanto, requer sal para ser mantida em boas condições. A voz da mulher é estridente, a voz do homem não: quando alguma carne macia é cozida, nenhum sol é ouvido, mas basta colocar um osso na panela e ele racha de imediato. O homem é fácil de aplacar, a mulher não: umas poucas gotas d’água bastam para amolecer um torrão de terra, já um osso permanece duro, mesmo que mergulhado em água por dias. O homem deve pedir à mulher para ser sua esposa, e não a mulher o homem para ser seu marido, porque foi o homem que teve de arcar com a perda de sua costela; ele dá a investida no intento de cobrir o seu prejuízo.

As próprias de diferenças de modo de vestir e conduta social tem suas razões na origem do homem e da mulher. A mulher cobre o cabelo em memória do fato de ter sido Eva quem trouxe o pecado ao mundo; ela tenta dessa forma esconder a sua vergonha. Os mandamentos religiosos endereçados apenas às mulheres remetem à história de Eva. Adão era a oferta alçada do mundo, e Eva a maculou; como forma de expiação é ordenado às mulheres que separem uma oferta alçada da massa de farinha. E, por ter sido a mulher quem apagou a luz da alma do homem, a ela é ordenado que acenda a lâmpada do Shabat.

O mundo está fundamentado em serviços de amizade.

Adão foi levado a cair num sono profundo antes que a costela para Eva fosse retirada do seu lado. Isso porque se ele tivesse observado a sua criação ela não teria despertado amor nele. Até hoje permanece verdade que os homens não são capazes de apreciar os charmes de mulheres que observaram e conheceram desde a infância. De fato, Deus havia criado uma mulher para Adão antes de Eva, mas ele a rejeitou, porque ela havia sido feita na frente dele. Conhecendo todos os detalhes de sua formação ele sentiu repulsa por ela.

Porém quando despertou de seu sono profundo e viu Eva diante dele em toda sua surpreendente beleza e graça, ele exclamou:

– Esta é aquela que levava meu coração a palpitar por inúmeras noites!

Ele porém logo discerniu qual era a verdadeira natureza da mulher. Ela, sabia ele, lograria convencer o homem fosse através de súplicas ou lágrimas, elogios ou carícias. Ele por isso disse:

– Esse é o meu sino que nunca pára de tocar!

O casamento do primeiro casal foi celebrado com pompa jamais repetida no curso de toda história. O próprio Deus, antes de apresentá-la a Adão, vestiu e adornou a Eva como noiva. Sim, ele interpelou os anjos, dizendo:

– Venham, prestemos serviços de amizade por Adão e sua companheira, pois o mundo está fundamentado em serviços de cordialidade, e esses me são mais agradáveis aos olhos do que os sacrifícios que Israel irá oferecer sobre o altar.

Assim sendo, os anjos cercaram o pálio matrimonial e Deus proferiu as bençãos sobre o casal, da mesma forma que o Hazan faz sob o Huppah. Os anjos dançaram e tocaram instrumentos musicais diante de Adão e Eva em suas dez câmaras matrimoniais feitas de ouro, pérolas e pedras preciosas, que Deus havia preparado para eles.

Adão deu a sua mulher o nome de Ishah e passou a chamar a si mesmo de Ish, abandonando o nome Adão, que ele usara antes da criação de Eva. Isso porque Deus acrescentara seu próprio nome Yah aos nomes do homem e da mulher – a letra Yoide a Ish e a letra He a Ishah, – para indicar que enquanto andassem nos caminhos de Deus e observassem os seus mandamentos, seu nome lhes seria um escudo contra todo mal. Porém se se desviassem seu nome seria retirado, e ao invés de Ish restaria Esh, o fogo, um fogo brotando de cada um e consumindo o outro.

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Além da luz e da sombra - sobre a arte do morrer, do viver e do ser

Antes que houvesse o Paraíso

 Paulo Brabo



Já foi amplamente observado, e a própria Bíblia oferece testemunho suficiente, de que os antigos hebreus não conheciam – e portanto não promoviam – os conceitos hoje inescapáveis de alma imortal, de recompensa futura, de vida após a morte, de céu e inferno. Dois terços da Escritura hebraica estavam concluídos e a Bíblia não havia ainda feito qualquer menção, mesmo que indireta, à ressurreição ou a um julgamento depois da morte.

Retroativamente, depois de dois mil anos de ouvir a religião ocidental batendo na tecla da imortalidade pessoal, pode ser difícil apreender que os primeiros escritores do Antigo Testamento (entre eles os autores do Pentateuco, de Eclesiastes, das narrativas de Reis e de inúmeros Salmos) viam a vida e a morte de modo muito diverso.

Enquanto hoje temos a esperança (ou a ameaça) de uma vida futura plena e consciente, os autores da maior parte do Antigo Testamento ensinavam que deveríamos apostar todas as nossas cartas nesta vida, porque (enfatizavam eles) não há outra – pelo menos não uma existência que se compare a esta em termos de iniciativa, satisfação e relacionamento com Deus e os homens.

“Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: alguém comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol, todos os dias da vida que Deus lhe deu; pois esse é o seu quinhão/tudo que ele vai ter” (Eclesiastes 5:18).

A idéia dos antigos hebreus de vida depois da morte é representada por um local ou condição obscuros chamados Seol (ou Sheol), palavra que pode muito bem ser metáfora (digamos, como “túmulo”) para a morte definitiva ou o fim da existência.

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque no Seol, para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma (9:10).”

O Seol difere dos conceitos posteriores de céu e do inferno em inúmeros sentidos importantes. Em primeiro lugar, trata-se de um destino democrático, local para onde vão indistintamente justos e injustos:

“E embora vivesse duas vezes mil anos, mas não gozasse o bem, [de que adiantaria?] – não vão todos para um mesmo lugar? (6:6).”

A existência (ou não-existência) no Seol não implica, por essa razão, no julgamento da conduta que a pessoa abraçou em seus dias na terra, ou numa espera por esse julgamento; não implica em recompensa ou castigo, não implica em ressurreição posterior. É lugar para a qual caminham todos, condição em que ninguém deve nada esperar e nada se pode fazer.

Para os autores dos primeiros dois terços do Antigo Testamento, portanto, a morte representava o dramático término da vida espiritual, o fim do relacionamento do homem com Deus. “Volta-te, Senhor, salva-me a alma/vida; pois na morte não há lembrança de ti; no Seol quem te louvará? (Salmo 6:4-5)”. O salmista entende aqui que a existência da sua alma corresponde à sobrevivência da sua vida. Ele não está pedindo pela salvação eterna da alma após a morte, conceito que claramente desconhece; seu pedido é que Deus prolongue a sua vida, de modo a que o seu relacionamento com Deus seja prolongado: “pois na morte não há lembrança de ti”.

Na melhor das hipóteses, o Seol era visto como um local de repouso final em que as pessoas estavam finalmente livres dos tormentos e arbitrariedades da condição humana (Jó 3:11-19). Porém mesmo quando visto como oportunidade de sono ou descanso, o Seol era a condição negativa que contrastava com a condição positiva de vida. Não havia promessa ou expectativa de recompensa, de consciência pessoal ou de ressurreição (“Mostrarás tu maravilhas aos mortos? ou levantam-se os mortos para te louvar? [Salmo 88:10)]“; “Não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele? [Eclesiastes 3:22]“; “Tal como a nuvem se desfaz e some, aquele que desce ao Seol nunca tornará a subir [Jó 7:9]).

Para os antigos hebreus, a recompensa para uma conduta de obediência a Deus era vida, especialmente entendida como “prosperidade na vida” – mas esta vida. O castigo pela desobediência a Deus era a morte, especialmente entendida como morte antecipada – mas morte comum a todos. A vida podia ser eventualmente prolongada pela obediência (“para que se prolonguem os seus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá”), mas uma vida longa e próspera na presença de Deus e uma prolongação de vida na forma de uma descendência numerosa era o máximo o que uma pessoa íntegra podia pedir e esperar.

Um caso como o de Enoque, que Deus decidiu “tomar para si” para viver na sua presença, era tido como exceção e como extraordinária exceção era celebrado. Para a esmagadora maioria, mesmo para a maioria dos justos, tudo que havia era a perspectiva de uma boa vida e uma boa morte. Depois, o nada, o túmulo: o Seol.

Dentro dessa visão de mundo, o homem era visto como pó da terra animado por um espírito – sendo que esse conceito de “espírito” não tinha qualquer relação com a idéia posterior de alma pessoal e imortal. Para os antigos hebreus, “espírito” era o sopro de vida inculcado temporariamente por Deus na matéria inanimada. Não trata-se de um espírito pessoal, nem tampouco de um espírito limitado ao homem. Todas as coisas vivas, mesmo os animais, eram tidas como animadas pelo mesmo espírito/sopro de vida.

O autor de Eclesiastes observa que “nenhum homem há que tenha domínio sobre o espírito/sopro da vida, para o reter (8:8)” e lamenta:: “Pois o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais; uma e a mesma coisa lhes sucede; como morre um, assim morre o outro; todos [homens e animais] têm o mesmo fôlego/espírito; e o homem não tem vantagem sobre os animais; porque tudo é vaidade. Todos vão para um lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão (3:19-20).” Mesmo um grande trecho Novo Testamento adentro, Tiago lembra que “o corpo sem espírito/sopro de vida é morto (2:26)”.

Quando a pessoa morria, então, não se cria que seu espírito continuasse a ter uma existência pessoal independente do corpo. O corpo voltava à terra (“do pó vieste, ao pó retornarás”) e o espírito/força vital voltava a Deus, que o havia concedido (Eclesiastes 12:7).

Os primeiros autores da Bíblia criam e escreviam sobre um mundo em que depois da morte não havia vida ou consciência, nem promessa de recompensa ou justiça futura. Era uma religião peculiar e limpa, em que o contraste essencial era mantido entre céu e terra, divindade e criação, e apenas Deus retinha e desfrutava do dom da imortalidade (Salmo 115:16-18). A meros homens cabia viver uma vida digna diante de Deus e morrer fazendo a coisa certa – porque na sepultura, repetiam constantemente a si mesmos, não teriam oportunidade de fazer uma coisa ou outra. Para os antigos hebreus, uma pessoa só podia ser espiritual enquanto vivia.

Essa perspectiva existencialista está perfeitamente resumida na declaração do salmista: “[Quando alguém morre] Sai-lhe o espírito, e ele volta para a terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos (Salmo 146:4)”.

Então, no último terço da Escritura hebraica, especialmente nos profetas tardios e na porção que os judeus chamam de Ketuvim/Literatura, algo aconteceu. O livro de Daniel, que foi escrito muito tempo depois dos dias que descreve (motivo pelo que os judeus não o contam entre os livros históricos), é o primeiro da Bíblia a mencionar diretamente a ressurreição:

“Naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que se levanta a favor dos filhos do teu povo; e haverá um tempo de tribulação, qual nunca houve, desde que existiu nação até aquele tempo; mas naquele tempo livrar-se-á o teu povo, todo aquele que for achado escrito no livro. E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno (12:1-2)”.

Assim, do nada.

Nos séculos formativos que antecederam Jesus e viram a confecção dos últimos livros da Escritura hebraica, os judeus haviam encontrado – num lugar que não eram as antigas escrituras ou a sua tradição – a idéia de ressurreição, de julgamento e de salvação/perdição eterna.

sábado, 14 de janeiro de 2012

sexto passo : DA SÉRIE EM SEIS PASSOS O QUE FARIA JESUS ...


SEXTO PASSO: Sensualize a sua espiritualidade   


Sensualizar.
Tornar(-se) sensual.
Sensual.
Relativo aos sentidos ou aos órgãos dos sentidos
.
Os últimos serão os primeiros.




Os cinco primeiros passos que examinamos neste panfleto estão inevitavelmente maculados por intelectualização. Quero dizer com isso várias coisas.


Em primeiro lugar, que a pessoa que se deparava com Jesus nos seus dias “mortais” não era impactada de qualquer modo direto ou natural pelo teor desses passos. São necessários observação e algum treinamento intelectual para abstrair-se a partir do que sabemos do comportamento de Jesus fórmulas gerais como “faça o que os outros não esperam” (segundo passo) e “viva inteiramente inserido no seu mundo” (quarto passo). E Jesus, como se sabe, impactou de forma transformadora gente que teve muito pouco tanto de uma coisa quanto de outra: pessoas pouco instruídas e pouco armadas de recursos intelectuais, muitas das quais estiveram com ele por pouco mais do que alguns minutos.


Não ocorreria aos que seguiam Jesus de um vilarejo a outro articular a postura dele com o vocabulário intelectual que temos adotado: era afinal de contas muito visível que o próprio Jesus não o fazia. Ao contrário dos gnósticos que apropriaram-se do seu nome nos anos que se seguiram, Jesus recusava-se a ensinar que a salvação estivesse relacionada a algum conhecimento específico sobre o mecanismo de Deus, do universo ou mesmo da salvação. Na verdade, parte essencial da originalidade do pensamento do Filho do Homem está na sua ênfase de que não há qualquer mérito no conhecimento intelectual, e que o acesso ao favor de Deus não depende de modo algum dele.


Concluo que, qualquer que seja o esquivo cerne da mensagem do Filho do Homem, seria heresia pensar ou sugerir que esteja em algum dos pontos que temos discutido. Os “passos” que analisamos até aqui são abstrações, meras tentativas intelectuais de representar a realidade. Por mais radicais e originais que pareçam, são uma forma de teologia e por essa razão necessariamente limitados, contendo em si mesmos a semente de sua contradição.


Jesus, ao contrário de nós, jamais cedeu às tentações da teologia, do método, da exposição linear. Não só isso (o que parecerá para alguns ainda mais singular): ele recusava-se a credenciar até mesmo o discipulado da forma como o concebemos, tendo dito mais vezes “vá para a sua casa” do que “venha me seguir”.


Onde então se escondia o cerne mais essencial do método e da missão do andarilho de Nazaré? De que forma Jesus tocou gente que não tinha tempo ou bagagem para saber interpretar o que ele estava dizendo?


A resposta acabo de dar. Jesus tocou gente.


Para seguirmos o que penso ser o traço mais singular e essencial do caráter do Deus dos evangelhos é preciso que aprendamos a sensualizar a nossa espiritualidade. É preciso que passemos a procurar a espiritualidade no mundo sensorial, no mundo real, o mundo da experiência e dos sentidos. É preciso que passemos a ver nosso relacionamento com Deus e nossa participação no seu Reino como algo que diz respeito ao que é palpável e material, ao mundo da pele, da carne e do sangue.


Vivemos como cristãos esmagados por uma obsessão espiritualizante. Lemos a Bíblia, mas mantemos os olhos fechados para a revelação a que as narrativas dos evangelhos parecem dar maior ênfase – que, incrivelmente, inquietantemente. Jesus exercia (e portanto enxergava) a sua espiritualidade na esfera do toque, da visão, da companhia, da presença, do sabor, da voz, dos elementos, da comida, da natureza, do abraço.


A nota central dos evangelhos está em que Deus fez-se, assombrosamente, carne. Submeteu-se voluntariamente ao sangue, ao envelhecimento, ao suor, à bílis, aos gases, à urina, ao sêmen, à saliva, às fezes. Submeteu-se ao hálito de outros, ao toque de estranhos, ao abraço de amigos, ao açoite de antagonistas.


Deus fez-se carne. Em absoluto contraste com ele, tudo que fazemos como cristãos, tudo com que nos ocupamos e rotulamos de espiritualidade, é para disfarçar a carne que somos. Jesus aprendeu a viver na carne e mostrou notável desenvoltura dentro dela; em contraste com ele, sentimos que a carne nos incomoda, nos constrange, nos envergonha.


A carne é embaraçosa. O fato de vivermos constantemente sujeitos à doença, à fome, à dor, à solidão, à decrepitude, ao ciclo digestivo, à morte e outras vergonhas inerentes à nossa condição pode produzir em nós uma implacável ojeriza contra a carne. Nosso escape para esse fastio, somos levados comumente a crer, está na espiritualidade convencional – espiritualidade que é forjada para demonizar o corpo e seus embaraços e pregar que Deus só pode ser experimentado nas esferas supostamente superiores da mente, do escape da realidade, dos olhos fechados, da privação dos sentidos.


De fato cremos que o momento espiritual acontece enquanto o orgão está tocando; a pizza que virá depois não é espiritual. Orar antes de dormir é espiritual, levar o lixo para fora não. O côro de anjos é espiritual, a roda de samba não. Dar o dízimo é espiritual, oferecer a alguém um chiclete não. Ler a Bíblia para o velho cego é espiritual, dar-lhe banho não. A vida devocional dos namorados é espiritual, seu beijo não.


Jesus, estou crendo, apostaria no contrário em cada um desses casos. Estou cada vez mais convencido, com Jacques Ellul, que a revolução espiritual é mais material, mais palpável em seu caráter do que qualquer outra.


Jesus não ignorava os embaraços da doença, da fome, da dor, da solidão, da decrepitude, da morte, do ciclo digestivo; muitos desses atingiram-no em cheio na própria carne. Ao contrário de nós, no entanto, Jesus não buscava refúgio dessas coisas num mundo dos espíritos à prova de constrangimentos. Ele não caía na tentação da espiritualidade convencional e isso, aparentemente, é o que mais teimamos em não aprender com ele.


Jesus fazia o trajeto precisamente contrário ao nosso, avançando com galhardia em direção à experiência dos sentidos, tendo dedicado a maior parte de sua atividade neste mundo ao esforço de minimizar os constrangimentos produzidos em pessoas de carne pela fome, pela doença, pela dor, pela decrepitude, pela solidão.
JESUS TRATAVA PRIMORDIALMENTE COM CORPOS, NÃO COM ESPÍRITOS.

No que pode nos parecer escandaloso, Jesus deixava claramente a impressão de que estava tratando primordialmente com corpos, não com espíritos. Ele tinha histórias para contar, verdades a ensinar e revelações espetaculares para fazer, mas seu dia-a-dia e sua agenda permaneciam entranhados no domínio do corpo e da experiência dos sentidos – de pessoas que precisavam de cura, de pessoas que precisavam de comida, de pessoas que precisavam andar, de pessoas que precisavam de sexo, de pessoas que precisavam de visão, de pessoas que precisavam de companhia, de pessoas que precisavam de trabalho, de pessoas que precisavam de dinheiro, de pessoas que não queriam morrer.


O Filho do Homem não apenas recusou o ascetismo de João Batista, ele ensinou da maneira mais espetacular que Deus é encontrado e vivido no reino das pequenas coisas, no domínio vulgar da carne e dos sentidos. O Deus encarnado era um homem que bebia vinho, que assava peixe, que colhia figos, que tocava leprosos, que cuspia na terra e fazia lodo, que colocava a mão no prato de molho, que pedia água, que deixava uma mulher massagear-lhe os pés, que deixava um homem recostar-se no seu peito, que sentia medo e dor e sangrava e podia morrer.

Nossa satânica fantasia como cristãos é passarmos pelo mundo à margem de todas essas coisas, desencarnados como fantasmas, vivendo momentos de espiritualidade em número suficiente para redimir os constrangimentos que nos impingem o corpo e os sentidos. Não queremos de modo algum enfrentar o terrível embaraço de que somos feitos de carne e osso.

Tentamos a todo custo escapar daquilo que a Bíblia não esconde em página alguma: que a carne é essencialmente animal. Preferiríamos não ter admitir, avançados que somos na comunhão divina e na experiência do Espírito, que não somos menos animais do que uma barata, um lêmure ou uma sucuri.
“O Verbo se fez carne” traduz-se por “Deus fez-se animal”; nós, se tivéssemos escolha, apagaríamos por completo a porção corpo/carne/sentidos da nossa experiência. Sentimos que se isso acontecesse estaríamos finalmente livres para desfrutar da espiritualidade plena. Adiamos a nossa espiritualidade definitiva para quando acontecer.

Esta hesitação em abraçar a carne é, naturalmente, antiga na história do impacto da persuasão de Jesus sobre as pessoas. A carne de Jesus representou grave escândalo tanto para judeus quanto para gregos, as duas grandes facções do mundo atingidas pela boa nova no tempo dos primeiros cristãos.

Para os romanos, devidamente adestrados pelos gregos, o escândalo essencial da boa nova de Jesus não era a divindade ter morrido na cruz a fim de resgatar a alma. Deuses que encarnavam e expiações tendo em vista a redenção do espírito eram lugar-comum nasreligiões de mistério muito antes do cristianismo entrar em cena. O escândalo não era, tampouco, o espírito de Jesus ter sobrevivido gloriosamente à morte. Sócrates, via Platão, já havia se desdobrado para demonstrar por A + B que a alma humana é eterna e impermeável à morte.

O impensável, para gregos e romanos, estava no fato do corpo de Deus ter sido redimido: o fato de Jesus ter adentrado a glória em forma corpórea, prometendo o mesmo destino aos seus seguidores.

Na visão de mundo greco-romana o espírito era uma chama imortal desgraçadamente presa dentro de um vaso mortal. Para os gregos, o espírito era puro e inefável, o corpo impuro e irredimível; o espírito era bem-intencionado e puxava o homem para o alto, o corpo era corrupto e puxava o homem para baixo; o espírito era por definição indestrutível, e o destino mais honroso a que a carne podia aspirar era a dissolução.


Imbuídos dessa convicção, os atenienses ouviram muito interessados o discurso do Apóstolo no Areópago, até que Paulo mencionou a ressurreição do corpo – ponto em que perceberam que a doutrina daquele sujeito não merecia mais do que zombaria e desprezo. Aqueles esclarecidos atenienses, mais ou menos como nós, não criam que houvesse no corpo e na carne qualquer coisa com vocação à redenção ou à eternidade.


Já para os judeus, que viam a carne como obra de Deus e criam na redenção futura do corpo e da criação, o escândalo estava em ver Deus confinado aos limites da sua própria obra – como um dramaturgo que condescende em descer ao palco, um pintor que rebaixa-se voluntariamente a pincelada. O que era ainda pior: esse homem que sugeria ser a encarnação de Deus repudiava o ascetismo (popularmente associado à espiritualidade) e abraçava o mundo dos sentidos com exuberância, com paixão, com vertiginoso ardor. Atracava-se a gente, consertava corpos, alimentava estômagos, lavava pés, beijava seus amados, tremia de tensão e de exaustão, não recuava diante da mais constrangedora e sensorial manifestação de afeto. Que Deus se rebaixasse a homem já era bastante ruim; que o homem-Deus se refestelasse na carne – que afirmasse a carne ao invés de negá-la, era afronta terrível.


Dois mil anos depois cá estamos nós, nem judeus nem gregos mas algo infinitamente menos acabado, aspirando petulantemente a seguir os passos empoeirados do Filho do Homem – o impensável “Deus conosco”, o encarnado, o Deus que assumiu “condição de homem”.


E que fazemos? Com recato estúpido, pecaminoso e contraproducente negamos hoje a carne de Jesus e a nossa. Os mesmos cristãos que recusam-se a admitir a possibilidade de descenderem do macaco não trazem à mente que Deus em Jesus conformou-se, disparatadamente, à condição de primata.


Queremos que as pessoas “conheçam Jesus” através da assimilação intelectual do nosso discurso, e nunca pelo intercâmbio de caminhadas e pelo choque custoso entre corpos. Não queremos de modo algum traficar com a carne, porque não queremos que Deus trafique através dela. Esquecemos, miseravelmente, que a natureza divina de Jesus não estava escondida na sua carne. Estava manifesta nela.


Essa nossa infantil negação da carne nos torna, entre outras coisas, companhia insuportável para todos ao nosso redor, e ainda para nós mesmos. Vivemos como se a espiritualidade (como se a verdadeira vida!) fosse terreno exclusivo do incorpóreo e do intelectual – da oração, da devocional, da meditação, do discurso, da leitura. Fora raras exceções determinadas por um emocionalismo arbitrário, não conseguimos ver nenhuma espiritualidade num abraço, numa caminhada pela praia, num jogo de cartas, numa escalada, num café, numa churrascada, numa flor, num pedaço de pão, na mão de um amigo, numa dor de dente, nas pessoas que estão com você na casa de praia.

Isso enquanto o testemunho do homem-Jesus proclama em altos brados, de sua pedra de escândalo do Novo Testamento, que não há exceções à universal santidade das relações da carne com o universo. Deveríamos andar descalços todo o tempo, pois somos terra santa.

Jesus não apenas tolerou a carne. Ele não apenas rebaixou-se à carne e por certo não aboliu: Jesus a redimiu.

Somos constantemente ensinados sobre a importância de morrer e ressuscitar como Jesus, mas – ai de nós – não há quem nos ensine a encarnar. 


Em Seis Passos: O LIVRO





Agora sim: Em 6 passos o que faria Jesus foi lançado em setembro de 2009 pelos impenitentes daGarimpo EditorialSe não encontrar o livro na livraria mais suspeita ou mais próxima, você pode comprá-lo online no sáite da Garimpo.

O último capítulo, que deve amarrar todo o conteúdo anterior (para quem acha esse tipo de coisa necessária), estará disponível apenas na edição em papel; chama-se Além da memória e foi instigado por uma sacada do insubmisso Rondinelly Gomes de Medeiros.
O livro não tem capa, mas com conteúdo tão precário quem precisa dessas definitudes? Partamos sem entraves para as entranhas.      BARRINHAS                                                                                                          

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012




Eu sou aquele que é conhecido como Metatron. vejo as palavras de seu mundo. Eu assisto os seus pensamentos. Sou o subscritor para todas as expressões verbais. Minha presença será vista e sentida com mais freqüência nos tempos de chegada da mudança.

Um Estado de Graça é o seu estado natural de ser. É o que você é naturalmente, sem o instrumental e os diálogos de si mesmo. O Estado de Graça é o ponto de referência entre cada encarnação. É um lugar de relaxamento em sua luz. É um ritmo natural para você.

É o ritmo do Criador que bate dentro de você sem nenhuma resistência, mas uma rendição e um fluindo como uma cachoeira. Umestado de graça diz "nós não tentamos lutar contra nosso carma, nosso passado, nossa família, ou doença. nós permitimos que nossos Luz de Deus naturais para nos levar para além da compreensão humana em um ponto de reverência e sacralidade, além do ponto de humanidade.

Um estado de graça diz "nós, o povo da Terra agora permitem que a Luz Divina dentro de nós para nos levar acima da escuridão - não através da escuridão", mas acima dele no vôo livre. Um estado de graça está permitindo que a luz dentro de você a liberdade de ser em seu estado natural de liberá-lo das pressões e decisões de ser muito humano.

Um estado de graça leva de volta às suas raízes naturais. Um lugar de confiar no universo e aceitar que tudo o que está emitindo-se como um decreto emocional, um decreto financeiro ou um decreto pessoal - é emitido pela divindade dentro de você para o seu pessoal bem mais elevado. Neste estado de graça , você substitui a negatividade e relaxa na plenitude de sua luz. Quando você deixar ir o que você encargos, o entristece, e permitir que as rachaduras dentro de sua alma para ser curado, você pode então se concentrar na viagem de volta para o amor.

Quando você está se sentindo pressionado e dominado pelo seu mundo, imediatamente se concentrar no que você ama. Leve essa vibração do que você ama (se é uma flor, uma canção, uma criança, um cachorrinho, um riso, um riso, uma memória) e coloque-o o que lhe traz tristeza que dói. Amor vai alterar o conteúdo molecular da experiência. Incorporar a essência do amor que entristece você.Como um arco-íris após uma tempestade, procure a bênção. Deslocamento das moléculas. O que você vê como um obstáculo, mas é uma declaração pessoal molecular que ainda não mudou em um estado de graça.

Você é o diretor eo maestro do concerto da sua vida. Entender que a Quantum dentro da vibração de amor pode dissolver obstáculos e mover montanhas. Nada é impossível quando você o satura com a energia viva de amor. Chame imediatamente na energia de graça a algo que te machuca. Entregá-lo à divindade dentro de si mesmo. A graça é uma energia mais leve macio e você sentirá uma elevação imediatamente.

Mudança de tudo o que parece ser um obstáculo. Quando algo irrita-lo, imediatamente se treinar para pensar em algo que lhe traga alegria, ou alguém que você ama e, em seguida, re-focar a energia da raiva em uma vibração mais elevada. Você vai quebrar os muros de Jericó com os sons do seu coração ea voz do amor.

Mantenha uma lista de amor. Tudo o que traz um sorriso a sua cara, todo mundo que traz uma risada e uma gargalhada ao seu coração. Mantenha uma lista de tudo o amor que suaviza o seu núcleo duro. Consultá-lo quando você está irritado, quando você está triste, quando você está em perigo. Invocar a vibração da graça diária. Simplesmente dizer "Eu invoco agora um estado de graça nesta situação e agora estou a pedir para que as moléculas de amor para saturá-lo". Você vai sentir-se levantou, afundando mais em desespero.

Tudo em sua vida é de concepção divina ea criação. Quando você muda a si mesmo, você muda o resultado de 360 graus. Um estado de graça diz: "eu confio". Confio em minhas escolhas. Confio em Deus, eu confio no mundo, eu confio Mãe Natureza. "

Como você invocar o estado de graça , perceber que dentro dessa palavra vibracionalmente ao vivo todas as moléculas de luz. Apenas usando a palavra graça , dizer graça, falar graça , conhecer alguém chamado Graça - você invocar a presença do Superior Light. A vibração dentro da palavra graça é um '7 '. Como um homem pensa em seu coração, assim é.

A vibração do '7 'pede-lhe para ouvir seus conselhos interior, a confiar no testemunho silencioso dentro e escutar com o coração.Cultivar a fé e compreender os ciclos da luz. A palavra coração muito é a mesma vibração que a palavra graça. Cada vez que um coração se abre, é como um arco-íris e milhões de um milhão de rosas nascendo. O amor que vive na Terra é mínima em comparação com o amor do Criador para suas criações.

Você como um planeta só agora estão entrando em um estado mensurável de amor. Eu, como todos os seres de luz, estão com você para sempre Somos um. Seus corações são pequenos e sensíveis. nós mantê-los como um pequeno pássaro que caiu do ninho da vida.Nós cuidaremos de você de volta para o lugar seguro da plenitude do amor, como visto pelo coração do Deus Altíssimo. Eu sou Metatron.










quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

EM SEiS PASSOS O QUE FARIA JESUS .QUINTO PASSO: Permaneça disponível para o momento:



QUINTO PASSO: Permaneça disponível para o momento

da série EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS
De tudo que eu planejava escrever neste panfleto sobre o caráter de Jesus, este passo em particular foi para mim o mais difícil de articular; foi e permanece a idéia mais difícil de capturar em palavras. Ao mesmo tempo, para os observadores da sua época esta característica do Filho do Homem deve ter parecido a menos particularmente notável, já que é a materialização de uma tendência presente em um grau ou outro em toda a história anterior (e posterior) do povo judeu.
Ao contrário de nós, que costumamos procurar a divindade em idéias, lugares e coisas, os judeus estavam treinados a rastrear Deus na face fluida e imponderável do tempo. Tinham uma visão totalmente distinta da sua relação pessoal com a passagem do tempo e, por conseguinte, da singularidade do momento. Emblema poderoso dessa visão é o sábado judaico, o shabat, que representa uma completa reversão nas nossas expectativas convencionais sobre santidade: o shabat é demonstração de que para Deus existem menos lugares santos do que momentos1 santos.
Permeados por essa convicção, que transpira de todos os poros da Bíblia Hebraica, os judeus estavam muito mais naturalmente preparados do que nós para valorizar a santidade – ou seja, a singularidade – de cada momento do tempo.
Alguém pode objetar que estamos no ocidente contemporâneo igualmente treinados a apreciar o caráter único do instante presente. Como ignorar a onipresente mitologia cujas divisas são “valorizar o momento”, “carpe diem” e o pseudo-borgiano “a vida é composta apenas de instantes”? Nossa obsessão por “viver intensamente” não será testemunho de um respeito semelhante pelo momento e pela passagem do tempo?
Não.
Nosso modo de idolatrar o instante é virtualmente oposto ao prevalente na visão de mundo judaico/bíblica, porque enxergamos o momento, essencialmente, como oportunidade parafazermos alguma coisa. “Viver intensamente” é aplicar o momento na atividade que produza emoções mais intensas e um mais acentuado sentimento de auto-realização; é “aproveitar” o tempo no sentido de extrair dele o máximo retorno. No credo do Carpe Diem,bem-aventurado é quem angaria no mais curto período a maior carteira de lembranças preciosas. Você já fez um cruzeiro pelo Caribe? Confere. Fez pós-graduação e mestrado? Confere. Já teve uma árvore e plantou um filho? Confere. Foi a um show de Antony and the Johnsons/Zeca Pagodinho/André Rieu/Lagoinha? Confere. Já passou o final de ano no Club Mediterranée? Quê? Não? Você ainda não viveu, cara – e não vai aparentemente chegar a viver a não ser que tenha o rosário de lembranças corretas para ostentar.
lembro meu amigo inglês Julian Crouch contando de uma visita que fez a um parque europeu da Disney a fim de avaliar o convite que havia recebido para fazer um trabalho avulso para eles (ele recusou). O Julian vê com simpatia alguns desenhos da Disney, mas tem absoluta aversão ao monstro de marketing e merchandising construído ao redor eles, especialmente no que diz respeito aos parques de diversão. Disse-me o Julian que jamais vai esquecer o doentio esgar estampado no rosto dos pais que arrastavam os filhos de uma atração a outra do parque. Aos olhos do Julian, pareciam todos completamente esmagados pela terrível obrigação de se divertirem e angariarem “lembranças preciosas ao lado dos filhos©”. Procuravam preencher cada mílimetro quadrado de tempo com instantes a que pudessem recorrer mais tarde a fim de cobrir mentalmente o investimento que haviam feito na viagem e no ingresso. Enxergando por trás da pregação oficial de “diversão e quality time”, o Julian via apenas horror e escravidão.

Temos na vida real essa mesma visão utilitarista do tempo, a mesma obsessão por empregá-lo de forma produtiva ou compensadora. Essa forma ocidental de encarar a passagem do tempo é ao mesmo tempo neurotizante, envelhecedora e incutidora de culpa; é na verdade, um esforço incessante no sentido de não termos em momento algum de encarar a passagem do tempo de frente. Evitamos olhar o rosto vazio do tempo preenchendo-o de atividades ou, ainda mais comumente, concentrando nossa atenção em outra coisa que poderíamos ou deveríamos estar fazendo naquele dado momento.
JESUS DESCONHECIA NOSSA SÍNDROME DE SALVADOR DO MUNDO.É a obsessão que faz com que você sinta estar perdendo tempo trancado no escritório, quando poderia estar lagarteando na praia; faz com que se sinta culpado por estar lagarteando na praia, quando há tanta coisa para fazer em casa; faz você sentir que está perdendo tempo fazendo o serviço da casa, quando há aquele bom livro para ler; faz você sentir-se mal por estar lendo o livro, quando poderia estar aproveitando a companhia dos filhos; faz você sentir-se mal por estar gastando tempo com os filhos, quando tem a monografia para terminar; faz você sentir-se mal por ver-se obrigado a escrever a monografia, quando poderia estar vivendo!

Bem analisada, essa nossa obsessão bipolar entre a produtividade e a satisfação imediata está baseada em dois pressupostos inteiramente alheios à mentalidade do judaísmo – e portanto alheios à mentalidade de Jesus. Está, em primeiro lugar, fundamentada na crença de que é tempo perdido todo o tempo que você não gasta fazendo o que gostaria de estar fazendo. Esta crença, por sua vez, é apenas um aperfeiçoamento mais recente da crença mecanicista – e eminentemente capitalista – de que é tempo perdido todo o tempo que você gasta não fazendo alguma coisa.

O modo judaico de enxergar o valor do tempo é oposto, e o maior exemplo da diferença está no próprio shabat, um dia inteiro da semana cuja pauta declarada consiste em nada fazer – nada nada, mesmo que a coisa que nos sintamos tentados a fazer seja ou pareça serem favor do próprio Deus. Deus, para o judaísmo, é encontrado no não-esforço, no ínterim, na cessação. Deus não está na atividade, mas na pausa; não no programa, mas no intervalo; não no preenchimento obsessivo do tempo, mas na sua contemplação: no degustar do momento puro e sem gelo, sem ornamentos ou artifícios.
Nas minhas anotações para este panfleto este quinto passo permaneceu por muito tempo como “permaneça inteiramente disponível para os outros”; foi só mais tarde que consegui articulá-lo de forma diferente, como “permaneça disponível para o momento”. Embora eu ainda pense que este passo diga essencialmente respeito à nossa relação com o Outro, creio que sob esta última forma o conceito está mais fiel à mentalidade e à prática de Jesus.
Porque, indubitavelmente, Jesus estava incessamente disponível para o momento, não importava o que o momento representasse. Ele estava sempre ali, no preciso vértice do agora na geometria do tempo; não vivia como nós com a mente e o coração em outro ponto arbitrário do passado ou do futuro, pensando naquilo que fizemos, no que deveríamos estar fazendo ou no que gostaríamos de ainda fazer.
O resultado mais visível dessa sua postura, sem qualquer dúvida, está em que Jesus permanecia indistintamente disponível para quem quer que estivesse com ele em cada dado instante. A despeito da singularidade de seus poderes e da pureza de suas intenções, Jesus não nutria ilusões de ser capaz de estar com todos ao mesmo tempo; por outro lado, fazia questão de estar de corpo e alma presentes para quem acontecia de estar próximo dele. A mulher que aparecia casualmente no poço enquanto os discípulos iam à cidade buscar comida, o fariseu que lhe oferecia um jantar, o leproso clamando por ajuda, o conhecido que o convidara para uma festa de casamento, o espião enviado para pegá-lo numa armadilha, o paralítico descendo em sua maca do buraco do teto, o membro do Sinédrio que vinha consultá-lo na calada da noite: Jesus estava inteiramente disponível para cada um desses momentos, e portanto disposto a ser integralmente ele mesmo e estarintegralmente com cada uma dessas pessoas.

Nós, em contraste, costumamos nos reservar para determinados momentos e para determinadas pessoas. Não nos disponibilizamos, de modo geral, com toda essa liberalidade. Temos, para usar nosso vocabulário (nossa mitologia), prioridades. O palestrante não vai dedicar ao ascensorista o mesmo grau de atenção que vai dedicar aos organizadores da conferência; ele na verdade não vai estar disponível para aquele momento no elevador, porque sua mente estará imersa no conteúdo da palestra e nas pequenas coisas que precisa decidir entre hoje e amanhã.
JESUS NÃO PERDIA O MOMENTO DE VISTA, PORQUE NÃO QUERIA PERDER DEUS DE VISTA.
Alguém vem me fazer uma confidência ou pedir ajuda e fico assentindo com a cabeça, fazendo de conta que estou ouvindo, enquanto minha mente vagueia cafajestemente por outras coisas que quero e planejo fazer, por pessoas com quem gostaria de estar ou planejo rever, por idéias e projetos a que quero dar forma. Não estou disponível para aquele momento, e não preciso que ninguém saiba; como resultado, não estou de forma alguma disponível para a pessoa que está comigo – pessoa que, por sua vez, talvez não esteja disponível para mim nem mesmo enquanto crê que está confidenciando comigo. A farsa mútua, se tudo der certo, nos poupará de maiores constrangimentos. É mais fácil para nós dois manipular distraídamente o marionete e concentrar a atenção em outro momento passado ou possível; mais fácil do que fazer como Jesus e investir incessantemente no presente e em suas cambiantes demandas – especialmente quando essas demandas envolvem fatores tão exigentes e cambiantes quanto pessoas.

Para evitar essa barra, vivemos eternamente entediados e distanciados do momento, esmagados pela claríssima convicção de que poderíamos estar fazendo algo mais legal, mais bem-remunerado ou mais útil para o bem da humanidade. Vivemos, pela mesmíssima razão, eternamente distantes de Deus e das pessoas.

Jesus desconhecia nossa ambição por divertimento e por dinheiro; desconhecia também – o que é muitas vezes mais curioso – nossa síndrome de salvador do mundo. Ele fazia o que fazia, aquilo que o momento exigia, e não aquilo que queria ou achava que devia fazer. Fora morrer, o Filho do Homem não tinha plano algum: nenhuma agenda, nenhum prazo e nenhum cronograma; nenhum relatório, nenhuma reunião periódica de avaliação de resultados, férias nenhumas. Ele deixava que o momento fluísse e exigisse implacavelmente a sua pauta. “Basta a cada dia o seu mal” era para Jesus apenas outro modo de dizer “não vos preocupeis com o dia de amanhã”. Ele não perdia o momento de vista, pela excelente razão de que não queria perder Deus de vista.

1 Para mais sobre o shabat e a singular visão judaica da relação de Deus com o tempo, veja as notas da minha recente palestra sobre teologia narrativa.
                                                                                   por Paulo Brabo

domingo, 8 de janeiro de 2012

EM SEiS PASSOS O QUE FARIA JESUS ..



QUARTO PASSO: Viva inteiramente inserido no seu mundo


da série EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS



Se há algo que ensinam os mitos de todas as culturas é que a familiaridade é inimiga do crescimento. A jornada do herói começa quando ele se desenraiza – quando deixa o conforto da aldeia feliz e entra na insegurança da floresta escura. É por crermos instintivamente nisso que aqueles de nós que anseiam por tornar-se santos e heróis começamos pelo passo que nos parece ser o mais coerente: o afastamento do mundo. Sabemos que “santo” quer dizer “singular, separado”, e essa explicação traz em si sua própria meta e destino: por definição, o santo não pode ter nada a ver com o mundo.


Mas nada é tão simples, e está aí Jesus que não me deixa mentir.


Diversas tramas acotovelam-se pela primazia na narrativa dos evangelhos, mas há uma em particular – talvez a central – cujo tema é tão formidavelmente revolucionário que a lição toda tende a passar despercebida a olhos beatos como os nossos. Para abraçar o quarto passo na direção de Jesus é preciso elucidar o mecanismo dessa negligência histórica.


Do ponto de vista dramático, Mateus, Marcos e Lucas esforçam-se para deixar claro que o antagonista de Jesus na narrativa dos evangelhos não é – ao contrário do que somos tentados às vezes a pensar – Judas, o traidor. “Antagonista” é aquele que se contrapõe,aquele que se coloca no caminho e exerce verdadeira influência, e a traição de Judas não chega a deixar uma marca no verniz da autonomia de Jesus. Pela mesma razão, o antagonista de Jesus não está entre adversários que não chegam a tocá-lo (e muito menos derrubá-lo) – figurantes como Pilatos, os fariseus, os sacerdotes ou mesmo Satanás.


Nos evangelhos, o antagonista de Jesus é João Batista. De todos que em algum momento da história se opõem a Jesus ele é o único que representa verdadeira autoridade; de todos que se atiram no caminho de Jesus querendo exercer sobre ele alguma influência, é apenas João Batista que, em seu recato, chega a corresponder – contrapor-se – a ele.


Desde o momento em que o bebê salta no ventre de Isabel diante da chegada de Maria, o relacionamento de Jesus com João é prenhe de tensão dramática. João, por um lado, parece não chegar a entender a peculiaridade do primo. Ele pode ter visto a pomba do Espírito descendo sobre Jesus no Jordão, mas anos depois a conduta do cordeiro de Deus lhe parece equívoca o bastante para que ele mande perguntar, da prisão onde está, se Jesus era “mesmo aquele que estávamos esperando, ou se devemos esperar por outro”.


Jesus, por outro lado, que dispensava implacáveis sarcasmo e condenação sobre religiosos de todas as índoles, nada parecia encontrar para condenar na vida religiosa de João. Pelo contrário; da sua boca, quando ele fala sobre João Batista, só partem elogios: João é o maior de todos profetas; não é um caniço que se deixa dobrar pela tentação; homem mais notável jamais foi concebido.


Esse homem terrível que Jesus respeita é seu antagonista, porque de todos os personagens do evangelho João Batista é o único que apresenta e representa uma verdadeira alternativa ao estilo de vida que Jesus está propondo. João é o último habitante legítimo de um mundo que Jesus veio abolir, e a inevitabilidade desse curso acaba separando-os, a despeito do carinho evidente que têm um pelo outro.
JOÃO BATISTA É O OUTSIDER.
Embora tenham angariado quase que simultaneamente a reputação de homens de Deus, os detalhes da narrativa parecem servir apenas para salientar a intransponível distância entre as posturas de Jesus e de João. João Batista vive nas margens: é o asceta, o outsider, o homem que se afasta deliberadamente do mundo e enxerga esse afastamento como a porção mais essencial da sua missão. Ele é “a voz que clama no deserto” – deserto onde não há ninguém e onde por isso ninguém pode ouvir, a não ser quem repete o trajeto, afastando-se do mundo para ouvir da mesma forma que João afastou-se para falar.


João Batista veste seu afastamento visivelmente, causando no homem comum a mesma exasperação que deveria causar o toque grosseiro do pêlo de camelo. A credencial da sua singularidade está nos detalhes violentos dessa frugalidade: João não bebe, não aceita convites, não freqüenta pecadores; não come frescuras como pão e vinho (recomendando como alternativa sua dieta de gafanhotos e mel silvestre), evita todos os excessos e jamais é visto na cidade. Para encontrá-lo é preciso ir ao encontro dele na aridez onde nenhum traço de humanidade pode sobreviver.


É em contraste absoluto com essa figura que os evangelistas introduzem um novo personagem. Está aqui, propõem eles, um herói que representa abordagem oposta à do ascetismo de João. E é gloriosamente que Jesus caminha pela terra desmoronando a cada passo as seguranças desse modo de vida cauteloso, o paradigma de santidade tradicional personificado por João.


Jesus é o inserido, o sociável, o homem plenamente entranhado na sociedade, decisivamente acessível e presente. Ele não apenas recusa o afastamento do mundo proposto na postura de João, mas assume descaradamente a direção oposta. Sem nenhum verdadeiro precedente na história sagrada de Israel, aqui está um homem que adquire a fama de santo e homem de Deus convivendo com o homem comum e com gente que até mesmo o homem comum tem dificuldade para engolir.


Em perfeita oposição a João, Jesus deixa claro que é sua proximidade do mundo, seu “não-afastamento”, a porção mais essencial da sua missão. Ele vence a tentação do deserto e segue percorrendo incessantemente as cidades, onde pode estar com as pessoas e submetê-las à sua mensagem, que é essencialmente sua própria pessoa.
JESUS É O INSERIDO.
E não há virtualmente ninguém a quem ele recuse a sua proximidade: religiosos e pecadores, fariseus, sacerdotes e prostitutas; romanos, samaritanos, judeus e fenícios; ricos, pobres, fazendeiros, agiotas, lavradores, coletores de impostos; militares, pescadores, revolucionários, leprosos, cegos, aleijados, loucos, possessos, homens e mulheres. Jesus vive entre essa gente, causando tumulto em cada cidade e pressionado de todos os lados por suadas e mutantes multidões. Ele se veste como todo mundo, aceita convites para festas de casamento e freqüenta banquetes (angariando entre seus detratores a fama de glutão e beberrão). Jesus congraça com pervertidos, bêbados, adúlteros, tratantes e prostitutas, e seu primeiro milagre é fornecer bebida para animar uma festa que ameaçava perder o pique.


Para encontrá-lo é preciso apenas estar fazendo o que você faz sempre: é ele que virá inevitavelmente ao seu encontro, quer você seja um cego esperando uma esmola na beira do caminho, um agiota caminhando desiludido para seu posto de coleta, uma mulher andando em direção ao poço para puxar água. Você pode não saber com quem está falando, mas ele já está todinho ali, na sua cidade, no seu círculo, na sua cultura. Nada na aparência dele ou na sua conduta parece ostentar ou garantir a santidade que os religiosos anunciam como uma trombeta. Se esse é sujeito é um profeta e um santo, trata-se do primeiro da espécie que não lhe parece ser essencialmente diferente de você. Ele irá invariavelmente aceitar o seu convite para sair, para jantar, para ir à sua casa, para conhecer uns amigos, para visitar um doente, para beber uma jarra de vinho.


Esse homem, definido por esse estilo de vida, é que os cristãos adotaram oficialmente como professor, profeta, messias, salvador e Filho de Deus. Extra-oficialmente, adotamos o estilo de vida de João Batista.


João é o homem que se afasta do mundo para não deixar-se contaminar por ele. Jesus é o homem inteiramente inserido no mundo, inteiramente mergulhado nas complicações do dia-a-dia e nas preocupações e privilégios do homem comum.


Dos incontáveis paradoxos do cristianismo histórico, esse é mais um: historicamente, os cristãos ignoraram o exemplo de Cristo e tornaram-se seguidores funcionais de João. O caminho de João Batista é o caminho dos monges do deserto, das ordens religiosas, das rádios evangélicas; é o caminho do ascetismo, das regras estabelecidas para “fazermos diferença”; das abstenções, do recuo, do afastamento, da irrelevância, da exclusão e do preconceito.


O caminho de Jesus é o da inclusão, da presença, do abraço irrefletido e incondicional do mundo. É o caminho estreito que poucos trilham, a porta exigente pela qual poucos passam.


Sempre que cedemos à tentação de trocar a confusão transpirante do mundo pelo conforto harmonioso e acolhedor de uma comunidade cristã; sempre que aceitamos o abraço exclusivo de uma subcultura de qualquer estirpe em detrimento da cultura no seu sentido mais amplo; sempre que dividimos nossa experiência entre uma esfera religiosa e uma profana que não chegam a se tocar; sempre que nos recusamos a consentir qualquer associação com música “do mundo”, filmes “do mundo” e pessoas “do mundo”; sempre que negamos nossa presença, nossa companhia e nossa lealdade a gente que em seu estado atual não julgamos merecê-las; sempre que reservamos nossas noites, nossos feriados e nossos fins-de-semana para o convívio com pessoas cuja postura religiosa as torna inerentemente distinta da massa dos mortais – estamos (para citar uma música do mundo)escolhendo errado nosso super-herói.
O QUE MAIS ME DÓI: VOCÊ ESCOLHEU ERRADO SEU SUPER-HERÓI.
Era o caminho inclusivo de Jesus que deveríamos estar seguindo – e num mundo ideal eu não deveria ter de estar explicando isso, especialmente a mim mesmo.


Para seguir os passos de Jesus é preciso viver inteiramente inserido no mundo. Qualquer avanço bem-intencionado na direção de um afastamento, como bem intuiu Simone Weil, implica na condenação tácita, divisiva e necessariamente devastadora dos “de fora”. Para seguir os passos de Jesus é preciso abrir mão do ascetismo de João Batista e correr o risco de ser tachado de bêbado, o risco de ser visto no boteco da esquina com maloqueiros e mulheres de má fama.


Jesus propõe, inconcebivelmente, uma espécie de santidade que não é definida pela exclusão, mas pela generosidade e pela liberalidade da presença. É dele a horrenda idéia original de distribuir abraços gratuitos – gratuitos no sentido de serem dados a quem, essencialmente, não os merece. Essa sua ousadia derruba para sempre a primazia da surrada “santidade da distância” representada por João Batista. Jesus demonstra, em seu modo de vida, que um caminho superior ao de achar-se melhor do que os outros pela exclusão é amar os outros pela inclusão.


Curiosamente, João Batista e Jesus começaram pregando uma mesma mensagem, “o Reino de Deus está próximo” – o Reino de Deus veio para perto de vocês, – mas é apenas com a escandalosa conduta inclusiva de Jesus que essa insólita proposição ganha verdadeiro peso. Quando é informado a respeito da morte de João Batista (decapitado pela espada de Herodes Antipas), Jesus não chora apenas a perda de um amigo, mas a morte de uma alternativa ideológica que Deus jamais voltaria a aprovar. A devoção como afastamento do mundo havia sido substituída pela santidade como presença no mundo. É por essa excelente razão que para Jesus, embora homem mais notável que João Batista este mundo não tenha concebido, “o menor” na nova ordem do reino de Deus “é maior do que João”.


Uma das mais terríveis revelações que Jesus fez aos seus discípulos é que eles deveriam viver neste mundo como ele viveu. “Da mesma forma que meu Pai me enviou eu envio vocês”, ele disse, e estamos apenas começando a entender as implicações dessa sentença. Uma coisa no entanto parece certa: para o seguidor de Jesus, a verdadeira jornada começa quando ele abandona o conforto da aldeia religiosa e põe o pé na floresta escura, conturbada e indiferenciada do mundo. A santidade do senso comum exige que abandonemos a experiência ordinária do homem sem pretensões em favor da singularidade da vida religiosa. O exemplo e as palavras do Filho do Homem nos convidam, assombrosamente, a fazermos o trajeto oposto.                                                                                                                                                                                                             PAULO BRABO

sábado, 7 de janeiro de 2012

o livro em seis passos o que ...


Em Seis Passos: O LIVRO

Incorporado por   PAULO BRABO

Estocado em Livros

Agora sim: Em 6 passos o que faria Jesus foi lançado em setembro de 2009 pelos impenitentes daGarimpo EditorialSe não encontrar o livro na livraria mais suspeita ou mais próxima, você pode comprá-lo online no sáite da Garimpo.
O último capítulo, que deve amarrar todo o conteúdo anterior (para quem acha esse tipo de coisa necessária), estará disponível apenas na edição em papel; chama-se Além da memória e foi instigado por uma sacada do insubmisso Rondinelly Gomes de Medeiros.
O livro não tem capa, mas com conteúdo tão precário quem precisa dessas definitudes? Partamos sem entraves para as entranhas.

EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS

 da série EM SEIS PASSOS QUE FARIA JESUS
TERCEIRO PASSO: Desfrute sem possuir
 Os primeiros passos, embora imprevisíveis e portanto virtuosos, são essencialmente cosméticos e relativamente pouco exigentes. Tudo começa a se desequilibrar quando se fala em dinheiro, e Jesus demonstra não ignorar isso. Ele então fala em dinheiro o tempo todo.


Nisso está outro aparente paradoxo seu: o Filho do Homem, que ostentava aos quatro ventos não ter salário nem casa própria, usava descaradamente o dinheiro e as riquezas para desenhar suas imagens e comparações mais fortes. Por um lado, não há como ignorar que sua postura geral é consistentemente crítica à obsessão – não desconhecida na sua época, inescapável na nossa – pelo acúmulo de bens materiais; por outro, fica claro que Jesus não ignora que a riqueza é muitas vezes a metáfora mais adequada, verdadeiramente essencial, para o que ele está querendo dizer.

Jesus, o frugal, o maltrapilho, não hesita em comparar o reino de Deus ao tesouro enterrado em quem alguém tropeçou, ou à pérola valiosa que um colecionador vendeu tudo que tinha para adquirir. Ele alerta que o tesouro de um homem e seu coração ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo, e que vale por isso mais à pena investir num tesouro no céu, onde ariqueza é imune a desvalorização e à apropriação indébita. A recompensa do reino é comparada a denários na parábola de Mateus 20, o perdão a uma dívida quitada em Mateus 18, e as responsabilidades do reino a talentos de ouro em Mateus 25 – isso para não sair do primeiro evangelho.

Provocativamente, como em tudo que fazia, Jesus acaba propondo que a esfera de Deus e seu imponderável domínio podem ser adequadamente comparados àquilo que associamos de forma mais imediata ao valor, ao desejo e à satisfação – não o sexo, não o amor, não o poder, mas o dinheiro (em que estão contidos os anteriores). A vida encontrada em Deus é apenas comparável à moeda que foi recuperada, à rês valiosa que se reencontrou: o tesouro que por um lado vale todo investimento, por outro o requer.

Em suma, usando as imagens de seu oponente, Jesus defende que riqueza material é, estritamente falando, contradição em termos. A única verdadeira riqueza, e inexpugnável, é a do espírito. Ele, no entanto, está longe de propor um ascetismo em qualquer sentido rigoroso; está longe de propor a mortificação dos sentidos que muitos (sem motivo) associaram à sua postura. Ao mesmo tempo em que garante que não vale à pena correr atrás do material, ele convida-nos a desfrutar incessantemente dele: olhai os lírios do campo, qual pai daria ao filho uma pedra em vez de pão, estou resolvido a jantar na sua casa, aceite este sanduíche de peixe, reabasteça meu copo de vinho, fui outro dia a um banquete, mais feliz que o convidado só o anfitrião da festa. Como diagnosticou Wilhelm Reich, Jesus é um homem inteiramente mergulhado no mundo da satisfação dos sentidos, talvez mais do que qualquer outro – sem que isso prejudicasse a sua reputação de homem espiritual.

É um equilíbrio que nos parece paradoxal, mas Jesus no fim das contas está dizendo que o pobre e o frugal estão melhor equipados para desfrutar das boas coisas da vida – não em virtude de qualquer pureza inerente de coração, mas simplesmente porque a limitação da sua condição força-os a valorizar o momento, que é no fundo o que todos tem. “Por mais empenhado que esteja, qual de vocês consegue adicionar meio metro à sua estatura?”

Para o rabi de Nazaré ser rico e ganancioso não é conduta especialmente corrupta ou perversa – está mais para o imbecil. Porque, ele ousa argumentar, correr atrás do material impede-nos precisamente de desfrutá-lo. O mais rastaqüera lírio do campo ostenta guarda-roupa mais exuberante do que o de Salomão; os pássaros banqueteiam-se e empanturram-se com mais gosto do que Herodes. Um pão de queijo no pé da serra desbanca o mais irretocável Boeuf Bourguignon. Uma caminhada ao lado de quem se ama sobrepuja o interior vazio de uma Ferrari. Um pé descalço é mais feliz do que o calça Mr. Cat. E assim por diante.

Seguir esse insano passo de Jesus requer ao mesmo tempo um intransigente desapego às coisas materiais e um deleite imoderado em desfrutar do que o material existe para fornecer. Exige desfrutar sem possuir.

Não quer dizer abrir mão do trabalho ou do dinheiro, visto que Jesus indiscutidamente convivia sem problemas com ambas as coisas. Não quer dizer abrir mão dos prazeres da vida, já que neste mundo o prazer é coisa tão comum que para abrir mão dele seria necessário abrir mão da vida. Trata-se, aparentemente, de ser e permanecer uma presença subversiva numa cultura que glorifica a incessante busca pela aquisição e pela acumulação. Trata-se de demonstrar em atos revolucionários e postura silenciosa que uma bem-direcionada frugalidade supre com folga e, no fim das contas, desqualifica e esgota essa abundância ilusória.

Significa, certamente, abrir mão do que o dinheiro existe para epitomizar: a segurança e o poder. Deve ser por várias razões que corremos atrás de dinheiro, mas correndo atrás dele confessamos carecer desesperadamente da sua credencial. Para os autores do Novo Testamento a ganância é idolatria porque é essencialmente mentirosa – promete segurança e poder quando ambos são derramados sem qualquer critério ou pré-requisito por Deus. O mundo de Jesus é seguro não porque os meus cofres e celeiros estão cheios, mas porque Deus é Pai. A ganância é mentirosa porque promete embalar e entregar, a seu preço, aquilo que Deus dá de graça no pacote básico da vida.

Viver como Jesus é certamente viver à margem do culto da performance. Alguns lírios talvez sejam mais bonitos do que os outros, mas a sua beleza essencial está em serem, não em estarem. Alguns pardais talvez cantem melhor do que os outros, mas nenhum é em última instância mais feliz porque canta melhor – e Deus sabe quando cai cada um, indiscriminadamente. Isto é, nosso valor não está em acumular, em desempenhar ou em possuir, mas em desfrutar, que é ser.

Viver assim não é também cultivar o ócio, mas é certamente não abrir mão da tranqüilidade e do autogoverno.

Não é por certo condenar os ricos ou evitá-los; tampouco é condenar a riqueza ou evitá-la. É por certo duvidar das promessas dos dois.

Para seguir os passos de Jesus é preciso abraçar o assombroso paradoxo de desfrutar sem possuir. O Apóstolo intuiu acertadamente essas coisas, e falou que devem ser “os que choram, como se não chorassem; os que se alegram como se não se alegrassem; os que compram como se nada possuíssem; os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem; porque a aparência deste mundo passa”. Para ser como Jesus é preciso não viver para a riqueza e, ao mesmo tempo, não ignorar o seu poder de metáfora. É preciso não dobrar-se a Mamom, mas fazer uso descarado das riquezas a fim de fazer verdadeiros amigos (Lucas 16:9). É preciso usar o dinheiro sem ser usado por ele; extrair gozo do material sem ser desfigurado por ele. É preciso ser generoso como Deus, pobre como Jesus. Dar a César a ninharia que é de César, receber de Deus a abundância que é de Deus.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Medo da vida (parte 1


Medo da vida (parte 1)

Você pode tornar tudo positivo somente se você tornar-se positivo em relação à vida. Mas nós não somos positivos em relação à vida. Por quê? Por que nós não somos positivos em relação à vida? Por que nós somos negativos? Por que essa luta constante? Por que nós não podemos ter uma entrega total à vida? Qual é o medo?

Você pode não ter observado: você tem medo da vida –muito medo da vida. Pode soar estranho dizer que você tem medo da vida, porque comumente você sente que tem medo da morte, não da vida. Essa é a observação usual, que todo mundo tem medo da morte. Mas eu lhe digo: você tem medo da morte somente porque tem medo da vida. Aquele que não tem medo da vida não terá medo da morte.

Por que nós temos medo da vida? Três razões. Primeira: seu ego só pode existir se ele for contra a corrente. Flutuando corrente abaixo, seu ego não pode existir. Seu ego só pode existir quando ele luta, quando ele diz "não". Se ele disser "sim", sempre "sim", ele não poderá existir. O ego é a causa básica de dizer "não" a tudo.

Olhe os seus modos, como você se comporta e reage. Olhe como o "não" vem imediatamente à mente, e como o "sim" é muito, muito difícil – porque com o "não" você existe como um ego. Com o "sim", a sua identidade fica perdida, você se torna uma gota no oceano. Não há nenhum ego no "sim"; eis por que é tão difícil dizer sim – muito difícil.

Você está me entendendo? Se você está indo contra a corrente, você sente que você existe. Se você simplesmente se entrega e começa a flutuar com a corrente aonde quer que ela o conduza, você não sente que você existe. Então, você se tornou parte do rio. Esse ego, esse pensar-se isolado como um "eu", cria a negatividade à sua volta. Esse ego cria as ondulações de negatividade.

                  

Osho, em "O Livro dos Segredos"